sexta-feira, 21 de maio de 2010

Mimosa boca errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.
Já sei a eternidade: é puro orgasmo."
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 11 de maio de 2010

Solidão, me erra!

Já faz tanto tempo que ele não aparece...
Dentro de mim o bichinho da saudade faz comichão, cutuca e sussurra no pé do ouvido: "Chama ele, chama..." Mas eu não quero ser chata e deixo o tempo fazer com que a saudade vá comichar lá no peito dele também. E espero.
Nesse meio tempo as pessoas dizem: "Desencana!" Então, como manda o manual da paciência, decidi fazer outras coisas e dar um "Lexotan"ao bichinho da saudade. Até que o bichinho dormiu e eu comecei a tocar a vida em frente. Mas de fato, cada música, cada filme, cada livro causa um agito no sono da saudade e ela quase que acorda de novo. É porque tudo me faz lembrar dele, porque era de tudo que a gente falava e eu nunca me cansei de observar os olhos brilhantes falando sobre qualquer coisa - qualquer coisa.
De noite, na cama, quando o sono demora a vir, é a saudade do seu calor que chega antes. É a memória do seu toque que me excita sob o edredom e o cheiro do seu hálito que ainda faz minha boca salivar.
Ainda é o aconchego do seu abraço que me faz falta nos dias vazios, e também nos dias cheios, quando tudo o que eu queria era tomar uma sopa e falar bobagens com ele. E brincar de origami com guardanapos contando historinhas bobas.
Se eu soubesse que seria assim, teria manchado mais camisas de vinho, só pra ele tirar pra lavar e eu poder recostar no seu peito nu. Teria feito mais massagens e teria chegado mais cedo.
Teria ousado mais, deixando ele me ver de toalha quando saía do banho, teria beijado mais perto da boca, falado mais perto da orelha... Teria ainda deixado que ele soubesse que eu o notava tentando esconder o desejo sob o travesseiro. Teria instigado, teria permitido.